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 05/09/2010
Explicando Serg... Apocalipse!   PDF  Imprimir  E-mail 
Por Brainiac  
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(ou João Paulo II, FlaXFlu e o fim do mundo!)

 

(A improvável continuação de “EXPLICANDO O PIAUÍ")

 

 

(I)

 

No salão mais alto e iluminado do céu, Deus pondera:

- Sergipe? Filho, você pergunta cada coisa, está naquela idade, não é? – E Deus continuou a olhar para o vazio, como se estivesse tentando lembrar de algo.

Comecei a achar estranho aquele comportamento todo. Tudo bem, era um sonho, em sonhos, a lógica é própria, mas...

Minha expressão de descrença chamou atenção de Jesus, que havia ficado calado por um longo tempo.

- AH! Vejo descrença no teu rosto, filho... – disse o Jesus-com-cara-do-Lula.

- Pô, Jesus, este meu sonho tá meia-boca... Não consegui nem imaginar um Deus onisciente!!!

O Espírito Santo negão soltou novamente aquela gargalhada cheia de fumaça.

- Sonhu?!?! Hahahaha...

Jesus contemporizou:

- Acho que você não entende a Onisciência de maneira apropriada...

- Ah é? E qual seria esta tal maneira? – perguntei.

- Bem, vou tentar traduzir pra uma linguagem que você entenda... Pense num grande Disco Rígido, que contivesse toda a informação da Existência...

- Pensei...

- Agora, pense em Deus, nesta manifestação que você está vendo ali, olhando para o vazio, como o mais potente processador que pode existir...

- Sei...

- O que você está vendo é Deus acessando o Disco Rígido da Existência, só que, nesta forma atual, ele não tem Memória RAM infinita, entende? A onisciência precisa ser “acionada em blocos”, como uma busca...

- Eu acho que o problema é no Windows! Se ele ficar azul, travado, é erro geral de proteção...– disse Fundeca.

A compreensão chegava e até esqueci de dar uma porrada no Fundeca.

- E quanto vai demorar pra ele acessar?

- Depende da informação... Sergipe... nem eu lembro direito... ele deve ter algum uso muito escondido, muito especial para este local...

A raiva voltou, até Jesus estava embarcando naquela bobagem sobre Sergipe. Fiquei impaciente, rondando o salão, vendo se havia algo para comer ou algo para roubar. Muamba celestial!

Depois do que sempre parece a alguém uma Eternidade, Deus parou de acessar e olhou para mim e para o Fundeca.

- Sergipe... eu achei que havia jogado na Oblivio Cósmico na terceira vez que refiz esta realidade...

Fundeca emendou, me cutucando com o braço:

- Deve ser a lixeira do Windows, o tal Oblívio....

- A resposta que você quer, meu filho, é que Sergipe é.... – dizia Deus quando algo inusitado aconteceu.

Uma saraivada de anjos invadiu o salão, de todos os tamanhos, cores e formas. As penas se soltando quando eles batiam uns contra os outros. Uma verdadeira gaiola das loucas celestiais.

- É vírus, é vírus, já vi isto... Tem que dar um boot pelo diskette!!! Deus tem modo de segurança, primo? – disse Fundeca pra mim.

Um anjo mais velho com plumas “doiradas”, dando gritinhos, como uma garotinha que vê uma barata morta, chegou perto de Deus e lhe falou.

- O papa está morrendo, Senhor! O penúltimo... Vim avisá-lo, como fui encarregado desde o início da Igreja.

- Já, Eterhon? – disse Deus.

 - Sim, Senhor... – asseverou o anjo.

Uma bolha de imagens então se abriu no meio do salão. Os anjos se afastaram, Jesus e o Espírito Santo se aproximaram de Deus. Ficaram tão juntos que se fundiram, tornando a tríplice entidade, que já era impressionante, mais esplendorosa, brilhante quase até não se poder olhar.

A voz da Entidade Máxima, UNA, pronunciou:

- É tempo, o FIM...

A Entidade entrou na bolha de imagens, cujos contornos mostravam vários homens ao redor de uma cama, vestidos de negro e vermelho...

Eu e o Fundeca ficamos ali, com os olhos esbugalhados, assistindo à bolha de imagens transmitindo da Terra, sem saber o que fazer ou o que dizer.

- O fim?!?! Apocalipse?!!? – perguntei ao anjo meio bicha de nome Eterhon.

- O FIM! – ele respondeu – vamos testemunhar o FIM, contemplem todos, o FIM – terminou sua performance apontando para a bolha de imagens.

Depois de um silêncio devastador no salão, a bolha de imagens se contorcendo com figuras estranhas, Fundeca perguntou:

- Pega quantos canais neste bicho?

 

 

 

(II)

 

Vaticano, dois de abril de 2005, sábado.

João Paulo II, com sua extrema-unção já proferida por um bispo de sua confiança há alguns dias, agoniza em seus aposentados, enquanto secretários e cardeais entram e saem do quarto.

Um dos valetes da guarda do Vaticano, timidamente, entra no quarto para entregar uma mensagem lacrada ao cardeal Ratzinger, enquanto alguns murmúrios continuam entre os presentes.

O cardeal Ratzinger não lê o bilhete, apenas olha em volta, para os outros pares seus. Todos prestam muita atenção, entendendo, finalmente, que a eleição estava terminada, sendo feita antes mesmo da morte de João Paulo, contrariando as leis canônicas, mas em nome da manutenção do papado.

Um dos cardeais novos, que estava prostrado imediatamente vizinho à cama de João Paulo, quebra o silêncio, dizendo que irá informar ao Pontífice sobre esta conduta irregular dos cardeais.

Os outros reclamam silenciosamente, mas João Paulo é informado.

- Nummmmmm!!! – um som gutural é emitido pelo santo padre, saindo pelo buraco da traqueostomia, enquanto, para a surpresa dos presentes, o mesmo levanta uma das mãos, na qual se encontra um pequeno livro de couro.

- Ai, meu deus, isto de novo?!?! – disse o cardeal Ratzinger.

Alguns “o quês” foram ouvidos, enquanto João Paulo continuava com seu “Nummmmm”, e agitando o livrinho.

O cardeal que informou interpelou o cardeal Ratzinger:

- Por quê este descaso, Eminência?

O cardeal Ratzinger fez realmente uma cara de descaso, falando para o resto:

- Ah, não liguem para isto, ele está velho demais, caduco!

Um dos secretários particulares de João Paulo, de nome Cifra, o mais próximo a ele nos últimos meses, manifestou-se:

- Não ouse falar neste tom, Eminência!!! O senhor sabe muito bem a que o santo padre se refere!

O amontoado de gente no quarto exigiu explicações. O cardeal Ratzinger, a contragosto, explicou:

- É aquela bobagem, aquela tolice, aquele quase blasfemo livrinho de São Malaquias!

Alguns “quem?” foram ouvidos, enquanto João Paulo balançava o resto da mobilidade de sua cabeça, ainda agitando o livrinho.

O secretário Cifra, que continuava a defender João Paulo, explicou que São Malaquias havia sido um bispo irlandês, que viveu no séc. XI e que fez sucintas e espantosas profecias, enumerando 112 papas, inclusive antipapas, que surgiriam depois de seu tempo. Cada indicado tinha uma epígrafe que o caracterizava, a primeira sendo “ex castro Tiberis”(do castelo do Tibre).

- Em 1143, Celestino II subiu ao trono de Roma, era provindo da “Cittá di Castello”, localidade que ficava as margens do rio Tibre – disse o Secretário.

Em seguida, retirando um livrinho de couro, aparentemente da mesma edição que João Paulo segurava, começou a ler algumas das epígrafes, explicando o que podia, no meio daquela tensão.

 

-         “Sus in cribo” (O porco no crivo). Urbano III (1185-1187), provinha da família dos Crivelli e tinha sobre o brasão um porco em uma joeira ou crivo.

-         “De schola exiet” (Saído da escola). Clemente III (1187-1191), provinha da família dos Scholari.

-         “Leo sabinus” (O leão Sabino). Celestino IV (1241), foi bispo de São Marcos, daí a referência ao leão, e depois da cidade de Sabina. Tinha além disso um leão no emblema.

-         “Hierusalem Campaniae” (Jerusalém de Champagne). Urbano IV (1261-1264), era natural de Troyes, no departamento de Champagne, e foi patriarca de Jerusalém.

-         “Piscator tuscus” (o pescador tosco). João XXI (1276-1277), tinha por nome de batismo Pedro, como o apóstolo pescador, e foi também bispo de Túsculo e morreu na Túscia, em Viterbo.

 

As vozes começaram a se exaltar no quarto. João Paulo, agonizando, mas frenético, balançava ainda mais o livrinho de couro. O secretário Cifra continuou e continuou, a lista de 112 nomes parecia interminável, mas os presentes ouviam atentamente. Apenas o cardeal Ratzinger transparecia incômodo com a leitura.

 

-         - “Pastor et nauta” (Pastor e navegante). João XXIII (1958-1963), foi patriarca de Veneza e teve como seu próprio emblema um barco com a vela enfunada. Inaugurou o hábito das longas viagens pastoriais.

-         - “Flor florum” (Flor das flores). Paulo VI (1963-1978), tinha flores-de-lis no seu brasão gentílico. A sentença também pode se referir ao conhecido comportamento dócil do mesmo.

-         - “De mediate lunae” (A metade da lua). João Paulo I (1978), foi pontífice por 33 diaRatzinger Morreu na metade do mês lunar.

 

O secretário Cifra então fez uma pausa dramática, anunciando que iria agora falar do número 111, ou seja, de João Paulo II, o penúltimo papa:

 

- “De labor solis” (a fadiga do sol). João Paulo II, pontífice desde 1978, é assinalado por uma epígrafe que, interpretada literalmente, poderia referir-se à busca por fontes alternativas de energia, típica de nosso tempo, da qual são emblematicamente representativos os resultados obtidos em matéria de energia solar. Mas o termo “trabalho”, na acepção latina, significa também “empenho” ou “sofrimento”. Pode-se, portanto, entender a profecia como destaque do mal-estar geral que aflige a humanidade, com particular respeito àquelas pragas – fomes, tensões, violações dos mais elementares direitos humanos – que estão hoje À luz do sol, também pela extensão capilar da grande comunicação. Há também a interpretação sobre a fadiga, a grande fadiga imposta a este papa itinerante, sempre em viagem pelo mundo apesar da idade e das seqüelas de seus ferimentos causados pelo atentado na década de 80.

 

Outra pausa, inspirou, expirou, rolou os olhos em volta de todos e leu o número 112:

 

- “Petrus romanus” (Pedro romano). Ao contrário das outras sentenças, esta, que diz respeito ao último papa, faz-se acompanhar de uma nota explicativa escrita pelo próprio São Malaquias: “o segundo Pedro não chegará a reinar, pois haverá um momento de ‘perseguição na Santa Igreja Romana, os pastores eleitos serão mesquinhos e não acreditarão mais nas palavras santas e, nestas tribulações, o último dos Santos morrerá pelos pés do último dos Judas, então, as duas testemunhas verão tudo do céu e o Juiz tremendo julgará o seu povo”.

 

O Cardeal Ratzinger começou a espumar de raiva, ninguém o segurou e ele partiu para cima do Secretário, tentando arrancar o livrinho da mão do mesmo. O Secretário Cifra começou a correr pelo quarto de João Paulo, enquanto este soltava gemidos cada vez mais altos. A perseguição se intensificou quando um outro cardeal passou a perseguir o Ratzinger, e mais outro e outro. O quarto era tão grande que levou quase 10 minutos para a perseguição terminar. O cardeal Ratzinger tropeçou, dando um chute em um aparelho que fazia “ping” e o papa João Paulo II, finalmente, depois de anos em agonia, faleceu.

- Ih! Fudeu... – disse o cardeal Ratzinger.

Os céus ribombaram, uma tempestade negra envolveu Roma, a Itália, a Europa. Em todas as partes, os crentes choraram, se debatiam, e os verdadeiros filhos do Senhor começaram a sentir que o momento estava chegando.

- A PROFECIA! A PROFECIA! – gritaram alguns.

- O nome, o nome do novo Papa, abra o papel, rápido, RÁPIDO! Se a profecia estiver correta, iremos saber pelo nome... – disse o secretário Cifra.

Mais trovões, mais gritos no quarto.

Na Praça de São Pedro, a multidão rezando, chorando, sentindo que João Paulo havia morrido e, em toda as partes do mundo, a Justiça começou a correr solta, triturando os ímpios com sua espada.

- E-eu-u-u... E-eu ss-sin-to mu-mu-ito... – gaguejava o cardeal Ratzinger, com o papel tremulando em suas mãos.

- ABRA! – ordenou o secretário Cifra, que voou em cima do cardeal Ratzinger e tomou o bilhete.

O papel foi aberto, no meio do desespero, dos sons de trovões aterrorizantes, e de um estranho cheiro de enxofre que tomava tudo. E simplesmente dizia: Ângelo Sodano!

- NASCIDO EM ROMA!!! – gritou alguém.

- Na verdade, o nome dele é PEDRO Ângelo Sodano!!! – gritou outro.

O cardeal RATZINGER caiu no chão desmaiado, a maioria ficou parada, como se esperando que alguém anunciasse o óbvio.

- O FIM! É O FIM! JUDAS, MONSTRO, É O FIM!– conclamou o secretário Cifra.

E as trombetas iam começar a tocar, os selos iam começar a se quebrar, os cavaleiros iam começar a cavalgar.

Apocalipse!

 

 

 

(III)

 

Brasil, três de abril de 2005, domingo.

Às duas da tarde, acordei com uma tremenda dor de cabeça, havia tomado um porre filhodaputa. Uma mistura de vodca com cana-de-raiz,  a noite inteira vomitando. Daí, quando dormi, tive mais um daqueles sonhos malucos com Deus e o céu e o Fundeca e, agora, o Papa...

- Saco! – disse, me olhando no espelho, enquanto escovava os dentes.

O telefone tocou, esperei que alguém mais na casa atendesse. Nada. Ok, bando de escrotos.

- Alô...

- Primo?

Putz. Era tudo o que eu precisava.

- Diz, Fundeca...

- Adivinha onde eu to?

- Tenho até medo de falar...

- Então, cheguei hoje... to pensando em dar uma passadinha na tua casa, pra gente conversar, colocar o papo em dia...

- Amanhã? – tentei desviar.

- Não...

- Mais tarde...? – ainda tentando.

- Não... agorinha, 4 e meia...

Putaqueopariu. Eu havia esquecido que hoje era dia de FlaXFlu.

- Eu vou sair... – menti.

- Vai não! – disse Fundeca rindo.

- Vou sim...

- Vai nada! – a risada aumentando.

- Ok, seu porra, pode vir – bati o telefone com a risada esganiçada do cretino ainda nos ouvidos.

O problema era simples. Eu sou Fluminense desde criancinha, o Fundeca é Flamengo desde criancinha. E desde muito cedo se instaurou uma rivalidade entre a gente, coisa de primos, comum. Só que, em quase 20 anos acompanhando direto o campeonato carioca, o Fluminense só ganhou dois! DOIS! Nem dois, na verdade, um e meio, pois o caixão 2002 ninguém leva a sério. Então eu fico apenas com o título de ´95, gol de barriga do Renato Gaúcho.

Já o Fundeca...

Brasileiros, Copa do Brasil, Sei-nem-quantos-cariocas...

Pior, toda vez que há alguma decisão, ele se larga de onde estiver, pode ser no Piauí, como agora, pra assistir na minha casa. Porque, tirando aquela vez de ´95, ele sempre tira a maior onda da minha cara, ri, bufa, me beija, passa a mão na minha cara, canta o hino do flamengo, balança faixa, conta na mão os títulos do Flamengo...

Lá pelos idos de 1999, quando o Fluminense estava na 3ª divisão, deixei de me importar, na verdade, consegui finalmente fingir o suficiente que não me importava.

Futebol é de lascar.

Mas, desta vez, havia algo a mais pra detonar tudo de vez.

Os torcedores do Fluminense, nestes anos todos sem títulos, sempre tinham uma saída no meio das gozações: lembrar que o nosso time era o TIME COM MAIS TÍTULOS DO CAMPEONATO CARIOCA. Era a nossa tábua de salvação, era o nosso consolo, era a nossa última pecha de dignidade tricolor.

Só que, só que, só que... (putaqueopriu!)

O Flamengo finalmente encostou. Mais um título e finalmente empatava, depois de anos e mais anos. E logo iria passar, eu sentia, eu sabia!

Putaqueopariu.

Preparei minha cara de quem não liga e esperei o Fundeca chegar, sentado no sofá, esperando a transmissão começar.

Fundeca chegou paramentado: camisa, bandeira, bandana, até o cd com o Hino do Flamengo ele havia trazido.

Eu estava de camisa preta e short branco. Fazer o quê?

E Fundeca começou a beber e fazer a festa, de cinco e cinco minutos, virava pra mim e perguntava:

- Mas como é esta conta mesmo? Vinte e nove contra vinte oito? Se ganhar hoje, empata? É isso ou eu to ficando bêbado?

Eu engolia, dizia que era isto mesmo.

- São vinte oito ou vinte nove?

- Vinte e nove, o Flu...

- E o Flamengo?

- Vinte e oito...

- Então vai empatar...

- Vai... Se o Flamengo ganhar a Taça Rio e derrotar o Volta Redonda!

- O Voltinha? Ta ganho!

- O VOLTAÇO!!! – rebati, já me preparando para torcer na final; eu, o pequeno tricolor, do pequeno fluminense, timinho.

O jogo não começava, eu ameaçava sair da sala, mas o Fundeca me puxava de volta.

- Oxi, vai ver o jogo, não? Eu acho que o Fluminense é favorito!!!

- É, o pessoal diz que é...

Era assim todas as vezes, o Flu podia ser favorito ou não, o Flamengo, quando chegava na decisão, ganhava.

Engoli e engoli.

A torcida do Fluminense começou a cantar a música do Papa:

- A benção, João de Deus, nosso povo te abraça...

Esta música vinha sendo cantada desde 1980, quando o Papa visitou o Brasil e o Fluminense foi campeão, com a torcida a entoando.

- Porra, esta porcaria de música... em 25 anos, funcionou 7 vezes! Só 7 vezes... 80, 83, 84, 85, 95 e 2002...

- Seis e meia, primo...

- Tá, o caixão 2002 não conta... Porra de música, o velho morreu... porra de música...

- Tá agitado, primo... tá nervosinho, ta? Quer que eu cante uma musiquinha para você se acalmar?

- Não precisa...

- POEIRAAAAAAAAAA! POEIRAAAAAAAAAA! LEVANTOU POEIRAAAAAAAAAA!

Merda, os últimos títulos do Flamengo foram com a torcida cantando esta música. Vinte e cinco anos cantando “A benção, João de Deus” e seis títulos e meio. Três ou quatro anos cantando “Poeira” e o Flamengo foi Tricampeão!!!

O jogo começou. O Flu em cima. O Flu atacando. O Flu tomando a bola. O Flu jogando melhor. Mas o Fundeca não parava de tirar onda. Ele tinha aquela certeza, que todos os flamenguistas parecem ter, de que, no fim, o Flamengo faz um milagre e ganha. E, para ser sincero, eu acreditava nisto também.

Terminou o primeiro tempo. Nada de gol. Leandro perdeu um gol cara a cara, foi tentar encobrir o goleiro e jogou para fora. Quase dei um murro na tv.

E o Fundeca rindo.

O segundo tempo começou e, aos 3 minutos, PENALTI! Fundeca nem se abalou.

GOL, Tuta no meio do gol. Comemorei timidamente. E o Fundeca lá, tranquilão, enchendo a cara de cerveja.

Seis minutos. A zaga do Flamengo faz a linha do impedimento errada. Fabiano esquece de correr e deixa Tuta e Leandro livres, o primeiro cruza para o segundo que, calmamente, encobre o goleiro Diego.

- GOL! – dou um gritinho, mas me contenho.

Fundeca abriu os olhos, mas depois relaxou e continuou a rir e encher a cara de cerveja.

Fiquei cada vez mais tenso.

Diego, após grande jogada pela esquerda, perdeu um gol cara a cara, outro.

 

O Flamengo pareceu assustado, mas eu sabia que se eles conseguissem um golzinho sequer, ninguém iria parar mais o time. Comecei a roer as unhas.

Vinte e nove minutos. Juan escapa pela esquerda, toca para Diego que entrega a Alex, que havia entrado no lugar de Leandro, sentindo a luxação na clavícula. Então, na entrada da área, Alex, meio caindo, meio chutando, empurra a bola no lado esquerdo do goleiro Diego.

- GOL! GOOOOOOOOOLLLLLL! GOOOOOLLLLLAAAAÇÇÇÇOOOOO! – gritei, desta vez botando para fuder.

Fundeca começou a se abater. Olhei de lado e ele havia parado de beber, guardado a bandeira e a bandana. E eu era só risos.

Preto Casagrande entra, dá uns dois passes errados. Nunca havia gostado deste cara, nem quando jogou bem no Santos, senti uma má vibração no ar.

Aos trinta e três minutos, o tal Preto chuta errado na entrada direita da área. A bola bate no zagueiro e volta no pé dele, livre. Ele vê Diego adiantado e coloca por cima.

- GOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLL!!! GOLAÇO! GOLAÇO! É CRAQUE, JOGA DEMAIS ESTE CARA! GOOOOOOOOOLLLLLL! – correndo pela casa, vou no guarda-roupa e tiro uma surrada camisa tricolor, visto e saio pulando!

Fundeca mal podia acreditar, ficou dando voltas em torno da tv, olhando para o céu, achando que há algo de errado com a realidade.

E eu lá, saltitando:

- A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça...

A partida avançava para o final, meu coração disparava.

- O Flamengo ainda fez 1 golzinho, do jogadorzinho, Zinho... – comecei a tirar onda da cara do Fundeca.

O jogo acaba. Passo a mão na cara dele, beijo, conto de um a trinta com os dedos, mostro o escudo do Flu, canto o hino, depois coloco o Cd do hino tocado por Arthur Moreira Lima, grande tricolor. E dá-lhe música do Papa também.

- A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça...

Fundeca se exaltou, as cervejas pesaram na cabeça e ele partiu pra discussão.

- Não fala do Papa, cara... tu nem cristão é... olha o respeito...

- A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça! A benção, João de Deus, nosso povo te abraça....

- Não fala assim do Papa, é blastêmia... é heremia... eu sonhei com a morte do Papa, coisa de respeito, pensa na vovó indo todo dia pra igreja... ela num ia gostá nada desta putaria cum nome dele... o sonho... ele tava morendu e tinha uns padre correndo em torno dele e Deus e uns anjos...

Eu parei.

- Como?!?! Você sonhou com o Papa?

- É, eu tava no céu, eu e você, daí o Papa morria e Deus não me explicava Sergipe...

Fiquei atônito, branco. O mesmo sonho.

- E o Piauí?

- Ah... você ouviu, é aquele negócio de paradigma, arcabouço...

- Arquétipo...

- É, isto aí mesmo...

Cai na cadeira, imaginando como nós dois poderíamos ter tido o mesmo sonho. Não poderíamos. Ou poderíamos?

Fundeca, meio bêbado, reproduziu todos os detalhes dos dois sonhos, tanto o do Piauí, quanto este outro.

A transmissão do jogo acabou, Fundeca mudou de canal, puto de raiva.

Na CNN, um repórter inglês estava dando a lista do possíveis sucessores do Papa. No meio dos nomes, ouvi o que não queria: Ângelo Sodano.

- Puta que pariu, Fundeca, a gente tava lá mesmo...

- Tava, ora, tô te dizenu!

- E o final, eu não lembro, o mundo ia acabar...

- Aí eu acordei.

- Eu também...

- O que vamu fazê, primu...

- Não sei, sei lá, dormir de novo... sei lá...

- Pragentevoltarpraláprucéu?

- É! Eu tenho uns comprimidos aqui pra dormir, a gente toma e vê o que acontece...

Concordamos, tomamos rapidamente as pílulas e caímos logo em sono profundo, esperando que o sonho-que-não-era-sonho voltasse.

E voltou.

Lá estávamos nós, o anjo viado Eterhon e toda a comunidade Angélica, assistindo ao Apocalipse, na bolha de imagens...

 

(continua...)

 



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