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Pra imprimir e guardar na carteira.
Ainda não conseguiu dar pra ninguém na redação do jornal? Sua grutinha anda mais desabitada que cinema de arte em dia de semana? Ninguém repara mais nas suas caríssimas armações de óculos de design italiano? Não precisa dar piti, pupa vernácula. Em tempo chega a segunda parte do nosso consagrado Manual. Agora sim, você vai peidar (se é que você ainda consegue) na farofa cultural da sua cidade!
08) Mesmo que não conheça nada do assunto tratado, insira algumas filigranas curiosas, informações inúteis extraídas de resenhas, matérias de revista, programas de televisão, etc. Exercite a memória.
Exemplo A:
- ... isso fala mais ao pensamento de Nietzsche.
- Sim, sim. Podre-diabo, ficou louco ao ver um cavalo sendo morto em Turim e assim permaneceu até o fim da vida...
Exemplo B:
- ... e esse foi o real motivo geopolítico da detonação das bombas em Hiroshima e Nagasaki.
- De fato. Tudo isso culmina com o Enola Gay (que era o nome do avião) despejando o Little Boy (nome da bomba) sobre as cabeças daqueles infelizes...
09) Nunca, jamais, admita um erro. Sempre que se enganar e algum cretino tentar corrigi-lo, cite uma referência que não poderá ser checada no momento e afaste a responsabilidade do erro de si. É famoso o expediente do “Há controvérsias...”
Exemplo:
- Com o início da guerra em 1935...
- Em 1939, você quer dizer.
- Não, 1935 mesmo. Essa é a data considerada por Hobsbawm como o início do período beligerante e...
10) Adote uma atitude “sex sucks”. Demonstre dar pouco valor ao amor carnal e execre a pornografia. Se tiver de tomar alguma posição, tenda sempre a um homossexualismo velado, atitude considerada cool nos meios acadêmicos. Vale associar a essa imagem um ar deprimido, constituindo a modalidade “gay triste”, igualmente admirada. Cite sempre que possível Oscar Wilde.
11) Nunca se refira aos seus ídolos pelos dois nomes, o que pode tornar a citação um pouco forçada. Prefira uma suposta intimidade e aproximação geradas pelo uso do apelido ou apenas de um dos nomes artísticos (geralmente o primeiro, no caso de personalidades nacionais, e o segundo para o pessoal de fora). Assim, temos: o Chico, o Caetano, o Raul, o Glauber e a Gal; e o Warhol, o Whitman, o Borges, etc.
Exemplo:
- A Clarice (Lispector) mostra profundas influências do Joyce (, James)
12) Sempre que possível, cite o nome das obras em sua língua original. Você não precisa conhecer o idioma, apenas pergunte a alguém que o faça e treine bastante em casa.
* É bom saber: L’Etranger (O Estrangeiro), Der Prozess (O Processo), Prestupleine i Nakazanie (Crime e Castigo), Picture of Dorian Gray ( O Retrato de Dorian Gray)
13) Seja pós-moderno. Comece por preferir coisas atuais aos clássicos ultrapassados. Sempre escolha as versões novas ou revisitadas, também chamadas releituras (decorar esses termos), de obras antigas.
Exemplo:
- É claro que prefiro a versão minimalista de Hamlet do Peter Brook! A do Shakespeare é deveras naïve...
14) O bom intelectual está sempre à frente. Tudo seu é mais e melhor. Assim, escolhe sempre os movimentos e expressões artísticas precedidos por “neo-” e “pós-”. Mais: use termos superlativos antes do nome, o que tende a aumentar o hermetismo e, de quebra, melhorar a sonoridade.
Exemplo A:
- ...superior a De Koonig?
- Sim, falo da descoberta do neo-expressionismo e a transvanguarda na década de 80.
Exemplo B:
- Não sei se considero isso pós-moderno...
- O quê?! O hiper-realismo desses filmes suscita ambivalências ultra-passionais.
15) Você não tem que necessariamente gostar das coisas que você idolatra publicamente. Como já foi explicado nos tópicos iniciais, suas preferências devem ser guiadas por fatores como obscuridade, capacidade de gerar polêmica, efeito dramático, etc. Não havendo, igualmente, necessidade de entender completamente as obras... Para ser franco, você não precisa nem conhecer essas coisas!
Exemplo A:
- “Finnegan’s wake” é meu livro de cabeceira...
Exemplo B:
- Gostas de música atonal?
- Se gosto?! Ouço Stockhausen diariamente enquanto escrevo minhas resenhas para o jornal...
16) Compareça aos seletos círculos culturais. Mas não faça amizades íntimas (nunca empreste livros). Vá apenas para sondar, sacar o que o “pessoal” anda lendo e fazendo. Mantenha sempre o ar circunspecto e o laconismo dos grandes gênios. Visite também - mesmo sem ser convidado - as rodas de artistas. Mantenha o silêncio até ser solicitada, por educação, sua opinião a respeito do trabalho do grupo. Nesse momento não hesite em ser escroto e pedante nas críticas. Continue firmemente até ser expulso e/ou vaiado.
17) Tenha sempre à manga empreendimentos fictícios nos quais esteja supostamente envolvido, i.e. “Projetos”. Use-os sempre que não estiver fazendo nada de especial (o que não é raro), para mostrar-se sempre na ativa. Apresente-se comumente com o cenho franzido, como se tivesse alguma preocupação insuportável, saque sempre seu bloquinho de notas e escreva qualquer coisa nele.
Exemplo A:
- Está ocupado no momento?
- Nada demais, estou trabalhando de freela* pra uma editora holandesa que quer publicar uma biografia sobre Eckhout.
Exemplo B:
- Que está escrevendo aí?
- Nada, não...coisas minhas (guardando o bloquinho). Uma idéia que tive pra colocar no meu ensaio sobre os erros conceituais de Leibniz...
(*) “freela” é corruptela de “freelancer”
18) Durante sessões de cinema, teatro ou recitais, mantenha atenção constante, ar meditativo e posição corporal adequada. Nunca ria de situações constrangedoras (principalmente do teatro). Guarde o riso para piadas mais sofisticadas, quando a maioria dos expectadores fica calada. Mantenha sempre com o cenho franzido.
Escolha uma dessas posições ao sentar:
Posição I: Ângulo agudo entre o plano do corpo e o plano das pernas (sinal de interesse), polegar da mão direita sob o mento, indicador sobre os lábios. A mão esquerda repousa sobre coxa esquerda.
Posição II: Pernas cruzadas. A cabeça repousa sobre os dedos da mão direita em L (indicador sobre a lateral da face direita e polegar sob a maxila inferior). Braço esquerdo sobre descanso da cadeira.
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